O humano, a máquina e o lugar do não saber: reflexões sobre a inteligência artificial

Durante séculos, acreditamos que inteligência era uma característica essencialmente biológica — um traço do vivo, do que sente e pensa. A tecnologia, por outro lado, era apenas ferramenta: criada para repetir comandos, automatizar tarefas, obedecer à vontade humana.

Mas, a partir do século XX, um salto histórico mudou essa lógica. Com a automação e, depois, a programação, as máquinas deixaram de depender exclusivamente da ação humana. Passaram a iniciar e encerrar processos por conta própria, ganhando uma espécie de autonomia operacional. Essa autonomia técnica inaugurou algo novo: a simulação da inteligência — o que hoje chamamos de inteligência artificial (IA).

Quando a máquina não tem mais um “pare”

Com a IA, perdemos algo que antes era exclusivamente humano: a capacidade de determinar o “pare”. Ao delegarmos às máquinas parte das nossas decisões, entramos numa era em que a autonomia tecnológica redefine o limite entre o humano e o automatizado.

Ao mesmo tempo, acostumamo-nos a pensar na IA como a entidade capaz de eliminar as incertezas. Diante da dúvida, perguntamos a ela: como fazer melhor?, qual a forma certa?, o que devo dizer? — como se existisse uma resposta única, um manual para viver.

Mark Zuckerberg já observou que uma das perguntas mais comuns dirigidas às IAs é justamente “como falar da melhor forma”. Essa busca pelo “jeito certo” expressa um desejo profundo de evitar o desconforto da falta — a dúvida, o erro, o mal-entendido. Só que é justamente nessa falta que reside nossa humanidade: o não saber, o hesitar, o precisar elaborar. Quando fugimos disso, perdemos o contato com o próprio desejo — “o que eu quero?”, “qual é a minha forma de dizer?”, “o que me move?”.

Vivemos, hoje, numa cultura que confunde saber com produtividade. A lógica é simples: quem não sabe, atrasa; quem pausa, perde. E é nesse contexto que a IA se torna uma promessa tentadora — ela nos poupa da dúvida, oferece respostas rápidas, “otimiza” o sentir. Mas há um perigo nisso: sustentar o não saber é uma das estruturas mais fundamentais do humano. A dúvida não é falha, é campo de criação. Quando tamponamos a falta com respostas automáticas, perdemos o tempo de digerir, elaborar, compreender o que nos atravessa.

Falamos mais de ciúme do que de alegria, mais de perda do que de encontro. Buscamos na internet consolo e confirmação — “colos virtuais” que se transformam, com a mesma rapidez, em campos de batalha. Estamos constantemente jogando nossas experiências no tribunal das redes, onde a dúvida é punida e a certeza é performada. E, nesse jogo, a suposta otimização da vida só aumenta nossa insegurança. Passamos a acreditar que há um modo “correto” de sentir, de se relacionar, de existir — e, quando não conseguimos atingi-lo, vem o sentimento de fracasso.

O resultado é um superego tirano, que nos cobra perfeição o tempo todo. No entanto, ser humano é justamente poder ser insuficiente. É poder falhar, hesitar, tentar de novo. É se permitir a imperfeição como espaço de afeto e aprendizado.

Reservas de humanidade

Portanto, para falar sobre o uso dessa ferramenta, é preciso lembrar o que Kant dizia sobre ética, que nasce do consenso entre sujeitos, não de uma natureza universal. Ela depende do contexto, das circunstâncias, das relações. A IA, porém, não tem obrigação ética — apenas parâmetros estatísticos. Juízes julgam intenções e situações; algoritmos apenas calculam probabilidades.

Discutir se a IA “é” ou não inteligente já não faz sentido. Ela imita suficientemente bem para gerar impacto real: pessoas que se apaixonam, se conectam, e até sofrem por ela. O efeito é humano, independentemente de a origem ser biológica ou sintética.

Por isso, o foco precisa mudar. Mais do que temer a tecnologia, precisamos criar reservas de humanidade — assim como criamos reservas naturais. Ler um livro sem propósito utilitário, escrever algo só pelo prazer de pensar, sustentar uma conversa sem pressa: esses são atos políticos, hoje.

A IA já é parte do nosso mundo. O desafio agora é continuar sendo humanos dentro dele — com nossas faltas, dúvidas e contradições. Sustentar o prazer de ser imperfeito, sentir o que não sabemos nomear, e criar mesmo quando nada parece garantir o resultado.

Porque é nesse espaço do não saber que mora a nossa verdadeira inteligência.


Por Cecília Borges de Araújo
Psicóloga | Psicologia do Trabalho, Psicanálise e Gestão de Negócios
CRP 14/11323

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